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Veja como lidar quando a ansiedade se tornar insustentável

Ana Maria Correa

Você pode ser uma pessoa que vem se sentindo ansiosa ao longo da vida. Você pode ser uma pessoa que conheceu a ansiedade somente durante a pandemia do Covid-19. Você pode não sofrer deste mal, mas certamente conhece ou trabalha com pessoas que sofrem.

Mesmo que você esteja acostumado a lidar diariamente com a ansiedade, muitas vezes esse sentimento acaba sendo um grande motivo de preocupação. Entretanto, para você é tão habitual a lidar com ela, que acaba ignorando a ansiedade ao invés de lidar com compaixão para viver melhor.

A doutora Ellen Hendriksen, psicóloga clínica e autora do livro How to be yourself: quiet your inner critic and rise above social anxiety (Como ser você mesmo: silencie seu crítico interior e supere a ansiedade social, em tradução livre), sobre os sinais de alerta demonstrados pelas pessoas que enfrentam a ansiedade.

Hendriksen expõe formas humanas e compassivas para lidar com altos níveis de ansiedade. Além disso ressalta a importância de abordar sobre o assunto com um colega de trabalho que passa por dificuldades. Veja os pontos mais importantes destacados no conteúdo abaixo.

Como identificar que a ansiedade está limites insustentáveis?

A ansiedade está diretamente relacionada a angústia e esgotamento, segundo Hendriksen.

Angústia significa que um estresse intenso está abafando suas formas cotidianas de lidar com determinada situação. Um exemplo: se você sempre conseguiu administrar a sua ansiedade com ioga ou atividades físicas e agora sente que mais nada parece capaz de manter tudo sob controle. Isso é um sinal forte e preocupante.

Esgotamento significa que a ansiedade o está impedindo de viver sua vida. Por exemplo:

  • Você não consegue se concentrar e, por isso, você não consegue ser produtivo no trabalho;
  •  Você perde o sono durante várias noites seguidas;
  • Você está tão preocupado que não é capaz de estar presente para seus filhos ou seu cônjuge.

 

Em que se deve prestar atenção quando se trata do chefe, colegas ou funcionários?

A ansiedade é majoritariamente interna e, portanto, difícil de notar de forma clara. Porém, entre as pistas que ela nos dá estão:

  • Preocupação ou irritabilidade descontrolada;
  • Inquietação física;
  • Incapacidade de se concentrar ou de manter o foco.

A ansiedade problemática provoca controle insuficiente ou excessivo. Pessoas que exercem controle de maneira insuficiente tendem a se mostrar passivas ou confusas. Suas ações podem ser dispersas, ineficientes e infrutíferas.

O controle excessivo pode assumir a forma de microgerenciamento, rigidez, vigilância acentuada a potenciais ameaças, ou aparecer quando há negação de uma busca por alternativas novas ou por adaptações.

Em períodos de ansiedade elevada, é comum as pessoas entrarem de cabeça em algum trabalho que eles podem controlar, seja um planejamento financeiro ou a elaboração e uma planilha, por exemplo.

Uma ressalva importante: controle excessivo é problema apenas quando provoca angústia ou esgotamento na pessoa ansiosa ou naquelas ao redor. Concentrar-se no trabalho não é problema se a pessoa deixa de pensar na crise; porém, se o trabalho se torna seu único foco e, principalmente, se afeta a saúde ou o relacionamento, ela ultrapassou o limite e chegou a um nível de controle excessivo.

Fique atento a esses sintomas se eles se manifestam em você mesmo.

O que não deve ser dito a um colega aparentemente ansioso? E que pode ser feito de útil?

Não tente oferecer soluções rápidas: 

  • “Você já tentou ioga ou praticar atividades físicas?”;
  • “Ouvi dizer que óleo de essências de lavanda faz maravilhas, por que você não tenta?”. 

Conselhos desse tipo, embora bem-intencionados, passam a sensação de que não se está dando o devido crédito ao problema.

Da mesma maneira, não dar o devido valor, com expressões como “tenha calma”, “não há por que ter medo”, ou “não se preocupe com isso”, faz a pessoa sentir-se desacreditada e sem apoio.

Muitos se sentem pouco à vontade em oferecer ajuda a um colega com quem não têm intimidade. Contudo, sempre se pode dar crédito à experiência do outro, através de frases como estas:

  • “Faz todo o sentido ficar estressado num momento como este”;
  • “Pode acreditar, ninguém está conseguindo ter o melhor desempenho atualmente”.

Ou fazer uma revelação pessoal relacionada ao trabalho e condizente com a situação:

  • “Está sendo um enorme desafio conciliar tudo”;
  • “Para mim o mais difícil é não saber como nem quando isso tudo vai terminar”.

Algumas preocupações são expressas por meio de “situações hipotéticas”:

  • “E se eu ficar de quarentena e não puder trabalhar?”;
  • “E se meus pais idosos ficarem doentes?”.

Saiba que essas perguntas são retóricas; mesmo assim peça à pessoa que formule uma resposta:

  •  “É um pensamento assustador; o que você faria?”.

A ansiedade é fomentada pela incerteza, e elaborar um plano cria certeza, o que, por sua vez, tende a diminuir a ansiedade. Dar apoio a um colega enquanto ele pensa em um plano de ação pode ser útil sem que isso desacredite seus temores. Não ofereça conselho, especialmente do gênero “vou lhe dizer o que deu certo para o meu amigo”.

O que deve ser feito caso você, um colega ou um empregado tenha um ataque de pânico?

Ataques de pânico são horríveis. É comum a sensação de que se está morrendo, tendo um infarto ou enlouquecendo. A boa notícia é que ele passa. Mas, é assustador tanto para quem tem, quanto para aqueles que tentam ajudar. Por isso, seguem algumas dicas para ambas as situações.

Caso você esteja em casa e tenha um ataque de pânico, uma forma de combatê-lo sem usar medicamentos é mergulhar a cabeça na pia ou numa bacia com água gelada por 30 segundos. Isso desencadeia o reflexo do mergulho, uma resposta evolucionária que interrompe todas as funções corporais não essenciais, incluindo emoções fortes durante uma queda na água fria. Isso aciona o sistema nervoso parassimpático e o acalma.

Se você estiver tentando ajudar um colega, não fale sem parar de forma ansiosa nem o bombardeie com perguntas. Fique calmo e peça-lhe que respire fundo e, mais importante, lentamente. Respirações rápidas podem provocar hiperventilação e piorar o surto.

Peça-lhe que inspire contando até seis e expire contando até dez. Dessa forma se tira proveito do fenômeno fisiológico chamado arritmia sinusal respiratória, que significa batimentos cardíacos mais rápidos na inspiração e mais lentos na expiração.

Se a duração da expiração for maior que a da inspiração, com o passar do tempo a frequência cardíaca vai diminuir, o que, por sua vez, acalmará os demais sistemas do corpo.

E se com o tempo a ansiedade piorar o desempenho? Como devem agir gerentes e empregados?

Se prazos não estão sendo cumpridos ou projetos estão ficando perigosamente atrasados, é possível começar a dialogar com esses profissionais. Use o mesmo tom que você usaria para falar sobre uma doença física ou um machucado — seja solidário e honesto. Diga:

  • “Em relação aos últimos prazos, eu queria saber como estão as coisas com você. Sei que a crise é um grande desafio para todo mundo. Você não precisa passar por isso sozinho. Vamos discutir a melhor maneira de ajudá-lo”.
  •  “Tenho de admitir que nos últimos tempos as coisas têm andado bastante estressantes e incertas. Não é seu estilo deixar que os projetos atrasem, por isso queria saber como você está. Você é uma parte vital e extraordinária desta equipe; quero ter certeza de que você está recebendo tudo o que necessita”.

Traga nesta conversa qualquer tipo de benefício oferecido pela empresa, como plano de assistência médica ou programas de saúde comportamental para que o colaborador se motive a cuidar da saúde mental. Além disso, esteja disponível para uma conversa empática, caso o colaborador se sinta confortável em dar detalhes de como está se sentindo no momento.

Como é possível notar, de forma virtual, o despertar da ansiedade de seu liderado sem ser invasivo?

Trabalhando remotamente é mais difícil notar os mesmos sinais que seriam percebidos pessoalmente. Primeiramente, seja transparente, admita que é uma época penosa para todos e que você quer saber como seu funcionário está.

Se ele disser que está bem, não responda com um “ótimo” nem passe para o próximo tópico como se tudo estivesse bem de fato. Veja uma resposta adequada para finalizar esse tópico:

  •  “Que bom, vamos continuar perguntando como você está à medida que as semanas forem passando”.

Tudo que faz de você um ser humano bom — sinceridade, flexibilidade, preocupação com os colegas — fará de você um bom líder neste momento sem precedentes que estamos vivendo. E lembre-se, você precisa estar bem para conseguir dar suporte aos seus liderados. Por isso, olhe para você considerando todos os tópicos que abordamos neste texto e identifique se você não precisa de ajuda primeiro.

Fonte: Harvard Business Review

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